Cetamina indica caminho para psicodélicos no SUS
O lançamento do livro “Terapia Psicodélica com Cetamina – Implicações Clínicas para o Cuidado em Saúde” ganha destaque como uma obra escrita por médicos e para médicos, abordando o potencial da cetamina como alternativa terapêutica acessível e segura. Organizado por um geriatra (Dr. Alessandro Gonçalves Campolina), uma anestesista (Angela Maria Sousa) e um psiquiatra (Rodrigo Fonseca Martins Leite), o livro abrirá os olhos de quem busca soluções para demandas hoje mal atendidas, como as pacientes terminais com câncer.

A cetamina oferece uma oportunidade única para repensar as dificuldades que ainda travam a adoção das psicoterapias assistidas por psicodélicos (PAP). Bem conhecida dos médicos como anestésico, ela se enquadra entre os fármacos regulamentados. Por ser também um composto dissociativo, pode ser incluída no conceito mais amplo de substâncias psicodélicas, com manifestações subjetivas que a medicina convencional muitas vezes interpreta como efeitos adversos indesejáveis.
O livro ressalta que a substância encontra apoio crescente em ensaios clínicos, mas ainda enfrenta barreiras culturais e regulatórias, alimentadas por estigmas e pelo “pânico moral” que insiste em separar artificialmente medicamentos de drogas.
Dados apresentados reforçam a relevância clínica: um parecer do Conselho Federal de Medicina (2024) mostrou que o tratamento com Spravato (escetamina intranasal, da Janssen) pode custar dezenas de milhares de reais, enquanto a cetamina injetável varia de R$ 176 a R$ 705. Apesar disso, o Spravato não faz parte da lista de medicamentos do SUS, e o uso da cetamina injetável em psiquiatria ocorre apenas em hospitais universitários e centros de pesquisa.
A publicação também destaca o cenário internacional. Em países como Alemanha, Austrália, Canadá, Nova Zelândia, República Tcheca e Suíça, psicodélicos como MDMA e psilocibina já são empregados sob prescrição médica especial, mas o acesso ainda é restrito pelo alto custo e pela burocracia.
Os números da Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçam a urgência: mais de 770 mil pessoas com depressão cometem suicídio todos os anos, e ao menos um terço dos 350 milhões de pacientes com sintomas depressivos no mundo não respondem aos antidepressivos convencionais. Entre pacientes com câncer, o índice de depressão chega a ser o dobro ou triplo em relação à população geral.
Diante desse panorama, o livro sugere que o uso off-label da cetamina pode servir como ponte acessível para ampliar o alcance da PAP, oferecendo aos médicos uma alternativa regulamentada, segura e cientificamente embasada.
Fonte da matéria original:
Folha de São Paulo
www.folha.uol.com.br




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